O meu guri.

outubro 28, 2009

Créditos do vídeo: Karine Reis/Kakaraxta/Youtube

O Meu Guri
Composição: Chico Buarque

(Clique nas estrofes em azul)

Quando, seu moço
Nasceu meu rebento
Não era o momento
Dele rebentar

Já foi nascendo
Com cara de fome
E eu não tinha nem nome
Prá lhe dar

Como fui levando
Não sei lhe explicar
Fui assim levando
Ele a me levar
E na sua meninice
Ele um dia me disse
Que chegava lá
Olha aí! Olha aí!
Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega suado
E veloz do batente
Traz sempre um presente
Prá me encabular
Tanta corrente de ouro
Seu moço!
Que haja pescoço
Prá enfiar
Me trouxe uma bolsa
Já com tudo dentro
Chave, caderneta
Terço e patuá
Um lenço e uma penca
De documentos
Prá finalmente
Eu me identificar
Olha aí!
Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega no morro
Com carregamento
Pulseira, cimento
Relógio, pneu, gravador

Rezo até ele chegar
Cá no alto
Essa onda de assaltos
Tá um horror
Eu consolo ele
Ele me consola
Boto ele no colo
Prá ele me ninar
De repente acordo
Olho pro lado
E o danado já foi trabalhar
Olha aí!
Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí!
Olha aí!
É o meu guri e ele chega!

Chega estampado
Manchete, retrato
Com venda nos olhos
Legenda e as iniciais
Eu não entendo essa gente
Seu moço!
Fazendo alvoroço demais
O guri no mato
Acho que tá rindo
Acho que tá lindo
De papo pro ar
Desde o começo eu não disse
Seu moço!
Ele disse que chegava lá
Olha aí! Olha aí!
Olha aí!
Ai o meu guri, olha aí
Olha aí!
E o meu guri!…(3x)

A favela e sua história.

outubro 28, 2009

A Favela

A Favela

“Chega no morro
Com carregamento
Pulseira, cimento
Relógio, pneu, gravador”

Chico Buarque

Conjunto de casebres, densamente povoados e construídos de maneira precária. Essa é a definição do lugar onde um bilhão de pessoas (de acordo com dados das Nações Unidas) vive atualmente no mundo, enfrentando a falta de infraestrutura (como falta de água potável, eletricidade, saneamento e outros serviços básicos), baixa qualidade de vida, limitação dos poderes financeiro (isso ocorre na maioria dos casos, onde temos elevadas taxas de pobreza, desemprego, ou os moradores fazem “trabalhos informais”) e aquisitivo (quando há áreas com edificações inadequadas), e muitas vezes degradação urbana e superlotações. Além disso, assentamentos informais enfrentam muitas vezes as conseqüências das catástrofes naturais e artificiais, tais como deslizamentos de terra, tempestades, incêndios.

Ainda com todos esses problemas, adultos, idosos e crianças, famílias inteiras, vivem e convivem em uma comunidade que, mal vista pelos que estão de fora, funciona e cresce cada dia mais em todo Brasil. O estado de vida dessas pessoas não é atual, e o estudo do modo de vida e das causas decorrentes desse, não pára. Uns procuram uma solução, outros, porém, somente apontam os problemas e prejuízos que daí provém.

História da favela no Brasil

Com o declínio do mercado negreiro, ex-escravos e outras parcelas da população acabaram se fixando em fundos de vale e encostas de morros, que, por estarem dentro da cidade, ficavam mais próximos do mercado de trabalho. Com o desenvolvimento da economia brasileira durante o século 20, esses espaços também foram sendo ocupados, pouco a pouco, pelas pessoas que saíam do campo em busca de melhores condições nos centros urbanos, mas que não podiam pagar para morar nas áreas nobres, assim, isso levou ao crescimento dos domicílios em favelas. Apesar de tantas características negativas, o jornal O Globo, em uma pesquisa feita em 2007, constatou que apenas 15% dos moradores cariocas gostariam de deixar o morro. A pesquisa também revela que 97% das casas das favelas cariocas têm TV, 94% geladeira, 59% DVD, 55% celular, 48% máquina de lavar e 12% têm computador. Depois de citadas tantas características negativas das favelas, perguntamos por que então apenas uma pequena porcentagem gostaria de deixar o morro.

Podemos ter uma base da resposta lendo o depoimento de uma moradora de favela do Rio de Janeiro: “Como moradora de uma favela da zona norte carioca, afirmo que entre lutas contra remoção e reivindicações pela melhor infraestrutura na favela, existem pessoas com muita história para contar. Mesmo com as dificuldades e problemas da vida, tem alegria para continuar nessa labuta diária. Trabalhadores, batalhadores, são a maioria. E seja num morro ou numa planície, comunidade é um termo que não exprime o mundo que existe dentro das favelas.”

Pobres, jovens criminosos morrem anônimos

 

Eles quase não aparecem na mídia, diferentemente de vítimas pertencentes à classe média, são meninos de rua assassinados por grupos de extermínio e cidadãos comuns, de vários grupos sociais, mortos por balas perdidas ou pela brutalidade policial. Vítimas sem glamour, os adolescentes e jovens pobres envolvidos com o tráfico de drogas e outras formas de criminalidade não têm sequer parentes dedicados a cultivar sua memória e a buscar justiça sempre.

Tampouco recebem apoio dos militantes de causas sociais. Acabam morrendo no quase anonimato, “desovados” em lixões da periferia ou em ruas das comunidades mais pobres. São adolescentes que se matam como feras e morrem como moscas, virando apenas mais um número nas contas da assustadora taxa de homicídios do país. A polícia é responsável por parte dessas mortes. Mas na maioria dos casos, os assassinos são os próprios jovens criminosos.

(…)

Fernando Dantas. O Estado de S. Paulo, 9/7/2000.

 

“Já foi nascendo com cara de fome

Não tinha nem nome pra lhe dar”

Chico Buarque

 

A canção “O meu guri”, gravada em 1981, tem como foco o jovem marginalizado dos grandes centros urbanos. Jovens que são arregimentados, ‘capturados’ pelo tráfico de drogas, ou seja, são soldados na/em guerra e que, como qualquer guerra, vão ao front para matar ou morrer. E, embora transcorridos 28 anos, é este um assunto que, infelizmente, ocupa espaço nos cadernos policiais de boa parte dos jornais de circulação nacional.

Em todos os países, uma das maiores preocupações é o bem-estar social das crianças e adolescentes, ou seja, do convívio e desenvolvimento social da família em uma sociedade.  Entretanto, a infância é a maior vítima da violência. Uma criança ou um jovem morador de favela pertencente ao mundo do crime não é apenas um bandido, e sim é um reflexo da história de um país onde o direito à cidadania é nulo, está apenas no papel.

Através da música “O meu guri”, notamos uma denúncia à realidade da época, mesmo após a criação do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), em 1990. No ECA, a lei nº 8.069, retrata os direitos e deveres dos menores de idade, estabelecendo o compromisso da sociedade e do poder público. Infelizmente há uma diversidade enorme de infrações relacionadas à Lei.  Pode-se relacionar a letra da música com o art. nº 7 do ECA, que trata da “…efetivação de políticas sociais públicas que permitam o nascimento e o desenvolvimento sadio e harmonioso, em condições dignas de existências”; com o art. nº 15, que diz: “ A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis e sociais garantidos na Constituição e nas leis”; e finalmente com o artigo “A criança será registrada imediatamente após seu nascimento e terá direito, desde o momento em que nasce a um nome, a uma nacionalidade e, na medida do possível, a conhecer seus pais e a ser cuidada por eles.”

Gravidez Indesejável.

outubro 28, 2009

Gravidez indesejável e a violência no Brasil


“Quando, seu moço, nasceu meu rebento
Não era o momento dele rebentar”

Chico Buarque

A gravidez indesejada pode ser uma das causas do alto índice de violência no Brasil? Segundo estudos, esta, no caso de mães adultas solteiras ou adolescentes, pode ser uma das maiores causas do aumento diário no índice de crimes violentos, como homicídio e estupros, no Brasil.

Baseados no estudo do economista norte americano Steven Levitt, autor do best-seller Freakonomics, onde relaciona a diminuição da criminalidade em bairros pobres dos Estados Unidos com a legalização do aborto, economistas brasileiros elaboraram estudos, também baseados na análise de estatísticas e dados demográficos econômicos, apontando como possível solução para uma diminuição da violência brasileira a instrução sexual e a própria legalização do aborto.

Gustavo Néri, economista PHD pela Princeton University e Gabriel Hartung, que está fazendo doutorado em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio, são dois desses estudiosos que colocam na mesa a discussão. Ambos apontam como uma das causas do alto índice de violência no Brasil e em bairros pobres o problema de mães solteiras e a gravidez, nem sempre precoce, mas sim, muitas vezes, indesejável. Segundo seus estudos, uma criança que nasce de uma gravidez não planejada tem maior tendência a entrar no mundo do crime. Isso acontece pois a mãe,solteira ou abandonada pelo parceiro, vive uma construção familiar deteriorada e não pode possibilitar uma boa condição de vida para seu filho, como frequentar uma escola, por exemplo. Ambos os economistas realizaram seus estudos baseando-se em pontos mais humildes do estado do Rio de Janeiro e São Paulo, comprovando a estatística da afirmação apontada em seus estudos.

Porém, a solução não é apenas a legalização do aborto, uma instrução sexual em escolas públicas também seria necessária, não bastando apenas a distribuição de preservativos, e sim educar sobre os riscos e tipos de prevenções que funcionam, alertar e ensinar os jovens, evitando futuros não desejados e que possam causar problemas maiores na vida deles mesmos. A prática do ensino sexual em escolas públicas não existe, não há políticas públicas que o garantem, e em muitos lares a falta de instrução é presente, não possibilitando uma conversa franca e educacional sobre o tema. Fora das casas a sexualidade e o aborto ainda são temas que não são discutidos abertamente devido a divergências de opiniões e crenças religiosas. Se esses assuntos fossem esclarecidos, provavelmente poder-se-ia resolver um dos maiores problemas que sofre o nosso país, a violência.